SOBRE O SITE
Este site é uma celebração do Ilê Asé Odé Ibualamo e uma resposta à violência sofrida por esse terreiro, Unidade Territorial Tradicional (UTT) do povo Iorubá, que foi demolido, em 15 de dezembro de 2022, pela Prefeitura de Carapicuíba. Na ocasião, nem sua Ialorixá, Mãe Zana de Odé, nem a comunidade conseguiram retirar de lá a maior parte de seus pertences.
A ação da municipalidade constitui um crime de racismo estrutural, institucional e religioso, a que essa e outras comunidades são sistematicamente submetidas por todo o Brasil, sob a justificativa da necessidade de uma obra de canalização do córrego do Cadaval, que margeava o terreiro, e da abertura de uma via de acesso ao Plaza Shopping Carapicuíba.
Na contramão do silenciamento dessa violência, queremos aqui trazer à tona ancestralidades, memórias, histórias, festas, espaços, comidas, objetos sagrados, músicas e rituais que foram preservados e potencializam os suportes da comunidade do Ilê, em rede com outros terreiros. Embora a materialidade tenha sido completamente destruída, a espiritualidade do lugar do Ilê mantém sua sacralidade, na qual a perspectiva mítica e religiosa resiste para além dos escombros, e a memória ancestral continua viva e atuante, em diferentes gerações de sua comunidade.
O caso do Ilê, que jamais deve ser esquecido, tornou-se paradigmático do racismo do poder público com relação aos povos de matriz africana. Sua destruição atingiu muitos vínculos afetivos, laços de sociabilidade, formação de jovens e adultos, práticas de distribuição de alimentos, festas e rituais tradicionais, que deixaram de existir por falta do barracão. As ruínas do Ilê também escondem as numerosas alegrias do “fazer parte” do terreiro, dos encontros sempre generosos e carinhosos entre as comunidades afrodescendentes.
No processo de construção coletiva do site, gostaríamos de agradecer o apoio financeiro do CAU/SP, por meio do projeto “A destruição do terreiro Ilê Asé Odé Ibualamo: patrimônios e caminhos da reparação” (Edital de Chamamento 005/2023, Termo de Fomento 020/2023). A realização desse trabalho seria impensável sem a alegria, a liderança e o acolhimento de Mãe Iraildes. A comunidade do Ilê, sobretudo Mãe Zana, Sueli e família, Bryan, Danilo, Tomaz e Derick, abriram os caminhos para a memória ancestral, lado a lado com a equipe de pesquisa da plataforma Nas Ruas: territorialidades, memórias e experiências, da Escola da Cidade – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo: Amália, Glória, Sarah, Anna Beatriz, Júlia e Laura. Agradecemos ainda: Luana Rodrigues, Tamara Pereira e Jéssica Akemi, pelo apoio ao desenvolvimento do projeto; Carolina Klocker, por gentilmente colaborar na realização de fotografias aéreas; e João Pedro, pela parceria, sabedoria e garra, representando ainda todo o coletivo da Frente Ilê Odé.
As páginas disponibilizam materiais compartilhados pela comunidade de terreiro de Carapicuíba, bem como registros produzidos pela equipe de pesquisa, por meio de entrevistas, oficinas, conversas e eventos. Todas as falas atribuídas a integrantes das comunidades do Ilê Asé Odé Ibualamo e do Ilê Axé Nitá Nirê, em aspas ou como citação indireta, foram colhidas durante o ano de 2023 e estão aqui textualizadas para melhor compreensão, sem contudo qualquer modificação de contexto ou sentido. O trabalho realizado deu-se como atividade colaborativa, reunindo comunidade e pesquisadoras, por meio do diálogo e do reconhecimento da diferença, num processo de troca e aprendizado mútuo, em que nenhum saber foi considerado maior ou mais importante que outros.
Esperamos que o site incentive ações de reparação e de construção de políticas públicas, nas quais os direitos de Ialorixás e Babalorixás sejam finalmente respeitados e por meio das quais as atividades regulares dos terreiros, que dão suporte à vida de inúmeras famílias, preservam o meio ambiente e promovem bem-estar, sejam valorizadas e multiplicadas.

Imagem da equipe e colaboradoras da atividade de feitura de maquete do terreiro, realizada em novemdro de 2023.
Fonte: equipe de pesquisa.
FICHA TÉCNICA DO PROJETO
A DESTRUIÇÃO DO TERREIRO ILÊ ASÉ ODÉ IBUALAMO: PATRIMÔNIOS E CAMINHOS DE REPARAÇÃO
Agentes da Comunidade Detentora: Odecidarewa (Mãe Zana de Odé, Zana Meire Oliveira de Jesus), Ofacilomy (Bryan William Oliveira de Almeida) e Ogan (Danilo Oliveira Bomfim) – Ilê Asé Odé Ibualamo
Agradecimentos: Mãe Iraildes e Vera – Ilê Axé Nitá Nirê e Associação Cultural e Assistencial São Cosme e São Damião
Coordenação: Mãe Zana de Odé, Glória Kok e Amália Cristovão dos Santos
Arquiteta Responsável: Anna Beatriz Ayroza Galvão
Arquiteta Pesquisadora: Sarah Rodrigues da Silva
Estagiárias: Júlia Dantas Deccó e Laura Leal Costacurta Ferrarezi
Colaboração: Sueli Gomes de Brito e sua carinhosa família, Tomaz Oliveira dos Santos, Derick Oliveira de Almeida, João Pedro Manccini, Lucas Almeida e Carolina Klocker
Secretaria da Escola da Cidade: Luana Rodrigues, Tamara Pereira e Jéssica Akemi
Ilustrações: pinturas sobre madeira e desenhos sobre papel, realizados por Tomaz Oliveira dos Santos, a pedido da equipe do projeto
Registros fotográficos: a não ser quando indicado de outra forma, todas as fotografias foram produzidas pela equipe de pesquisa (Glória Kok, Amália Cristovão dos Santos e Sarah Rodrigues da Silva) ou reunidas e disponibilizadas pelos agentes da comunidade (Mãe Zana, Bryan William e Danilo Oliveira Bomfim)
Site: realizado por Júlia Dantas Deccó e Laura Leal Costacurta Ferrarezi
Parceria: Conselho de Arquitetura e Urbanismo, Departamento de São Paulo (CAU/SP), Edital de Chamamento 005/2023 – Termo de Fomento 020/2023
Realização: Plataforma de Pesquisa “Nas Ruas: territorialidades, memórias e experiências” da Escola da Cidade – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
Apoio: Plataforma de Pesquisa "Arquitetura e Biosfera" da Escola da Cidade – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Frente Ilê Odé Ibualamo.





Registros das atividades e encontros do projeto “A destruição do Ilê Asé Odé Ibualamo: patrimônios e caminhos de reparação”, realizados entre outubro e dezembro de 2023.
Fonte: equipe de pesquisa.