Todas as falas atribuídas a integrantes da comunidade do Ilê Asé Odé Ibualamo e do Ilê Axé Nitá Nirê, em aspas ou como citação indireta, foram colhidas durante entrevistas e atividades realizadas ao longo do ano de 2023 pela equipe de pesquisa do projeto “A destruição do terreiro Ilê Asé Odé Ibualamo: patrimônios e caminhos de reparação”. Parceria: CAU/SP, Edital de Chamamento n. 005/2023, Termo de Fomento n. 020/2023. Realização: Escola da Cidade – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Plataforma de Pesquisa Nas Ruas: territorialidades, memórias e experiências.
A DESTRUIÇÃO DO ILÊ

Mãe Zana perplexa diante dos escombros do Ilê, após realização de Audiência Pública em Carapicuíba. Registro realizado em maio de 2023.
Fonte: equipe de pesquisa.
A VIOLÊNCIA CONTRA OS TERREIROS
Uma reportagem da Mídia Ninja, de 15 de janeiro de 2024, aponta para o crescimento vertiginoso de 17.000% dos casos de racismo e intolerância religiosa no Brasil desde 2009. Os principais alvos são os terreiros de umbanda e de candomblé, suas lideranças religiosas e as comunidades que participam de seus rituais e festas. Os estados que mais concentraram denúncias de violências foram São Paulo (270 denúncias), Rio de Janeiro (219), Bahia (172), Minas Gerais (94) e Rio Grande do Sul (51).
Somente no ano de 2023, foram contabilizadas 176.055 ações, causadas por conflitos que compreendem ofensas, crimes de ódio, ataques, depredações, vandalismos, incêndios, destruição física da materialidade do terreiro e seus objetos sagrados, além de constantes ameaças aos corpos das Ialorixás e dos Babalorixás.
Em Águas Lindas de Goiás, no mês de junho de 2021, as autoridades afro tradicionais e organizações dos povos tradicionais de matriz africana vieram a público manifestar seu repúdio contra os violentos ataques racistas praticados pela polícia contra os terreiros da região de Águas Lindas, Girassol, Cocalzinho e Edilândia, que alegou possíveis vínculos desses territórios sagrados com um criminoso foragido, conhecido como Lázaro. Os próprios meios de comunicação de massa deram apoio às agressões das forças policiais, reforçando as difamações das tradições e práticas religiosas de matriz africana.
As imagens dos alegados “rituais satânicos” que estão sendo divulgadas pela mídia foram produzidas pela própria polícia durante uma invasão e quebra das portas de umas de nossas casas. O que de fato estas imagens retratam são elementos sagrados de nossas divindades, especificamente ligadas ao culto ao orixá Exu e aos exus guardiões de Umbanda. Estes apetrechos nunca pertenceram ao procurado e nem tampouco guardam relação com o satanismo, referência que não faz parte da cosmogonia e mitologia afro.



Imagens feitas pela comunidade mostram os escombros após início da demolição realizada pela Prefeitura, mesmo com diversas ações sendo movidas em diferentes órgãos, atestando a importância de ampliar o diálogo entre o poder público e o terreiro.
Fonte: fotos superiores, acervo da comunidade; foto inferior, equipe de pesquisa.
Num claro processo de criminalização, demonização e racismo estrutural, os terreiros do Brasil ficam sujeitos à frequente truculência da polícia e do Estado, que promovem invasões, “quebradeiras” e até assassinatos do povo preto. No caso do terreiro Ilê Asé Odé Ibualamo, de Carapicuíba, que resistiu por mais de trinta anos, Mãe Zana conta que a comunidade sempre foi submetida às violações, mas, segundo ela, a situação está cada vez pior, mais agressiva e violenta. Observa a Ialorixá: “Hoje eles chegam metendo o pé no terreiro, bota a porta abaixo, quebra todas as coisas dentro e ainda levam o Pai de Santo preso, se não matarem, né?”. Relata o caso de um rapaz negro que, quando se viu perseguido pela polícia, entrou no terreiro. Ela conta que:
A polícia correu atrás dele, quebrou a porta do terreiro, entrou no terreiro, revirou tudo, porque o menino era preto. Se ele tivesse entrado na igreja, a polícia teria chamado o padre, perguntado se poderia entrar, chamado o pastor, perguntado se poderia entrar, inclusive até oferecido segurança pro pastor. Mas era o terreiro. E preto e ‘terreiro’ é bandido, é coisa errada é coisa ruim. Então eles entram e fazem o que querem. Aconteceu agora, muito recentemente.
No dia 21 de janeiro, o Brasil comemora o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, mas, como vimos, não há o que celebrar, devido ao aumento da violência contra povos tradicionais e religiões de matriz africana. A data, instituída através da Lei nº 11.635/2007, é em alusão ao dia do falecimento da Ialorixá Gildária dos Santos, a Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum, na Bahia, que foi destruído em 1999. De lá para cá, muitos terreiros foram atacados e destruídos, entre eles o Ilê Asé Odé Ibualamo, demolido no dia 15 de dezembro de 2022.
Vídeo da demolição do Ilê, em dezembro de 2022.
Fonte: acervo da comunidade.
Vídeo da demolição do Ilê, em dezembro de 2022.
Fonte: acervo da comunidade.
OBRAS DE CANALIZAÇÃO DO CÓRREGO DO CADAVAL E SEUS DESDOBRAMENTOS
O processo de destruição do Ilê tem início em meados do anos 2000, com a política de desenvolvimento urbano da Prefeitura de Carapicuíba, financiada pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal, com a propaganda “Vamos acelerar o crescimento do Brasil”.
No entanto, foi no terceiro trecho das obras de canalização do Córrego do Cadaval que a violência contra o Ilê veio à tona e o terreiro foi obrigado a mudar sua configuração: o barracão da frente precisou ser virado em decorrência da obra e o Ilê perdeu parte de seu terreno.
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Mapa que descreve as etapas do processo de canalização do córrego do Cadaval.
Fonte: João Pedro Manccini.
Além disso, a tubulação instalada promoveu inundações periódicas, uma vez que a vazão do rio é bem maior do que a tubulação que foi colocada. Isso fez com que toda a região começasse a alagar. O ano de 2012 foi marcado pela ocorrência da primeira de muitas enchentes que inundaram o Ilê, depois das chuvas. A água, que atingiu quase dois metros de altura, danificou muita coisa do terreiro.
A partir daí, as obras do PAC, sobretudo a canalização do Córrego do Cadaval e a construção de avenidas, foram realizadas às custas de uma série de medidas violentas, como as remoções dos moradores de várias vilas, a derrubada de suas moradias e a destruição dos terreiros de Carapicuíba.
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Mapa de Carapicuíba: o círculo amarelo maior indica a principal centralidade comercial da cidade, enquanto o menor destaca a localização do shopping, construído recentemente em área próxima à localização original do terreiro.
Fonte: João Pedro Manccini.
Depois da década de 80, quando esse desenvolvimento chega, Carapicuíba começa a se tornar página de todos os jornais, com enchentes, com desabamentos, com isso, com aquilo [...] E aí, essa urbanização desenfreada, impensada e criminosa mata, porque tem dezenas de pessoas que já morreram por consequência de enchentes. E várias famílias destruídas, lares destruídos também por consequência dessa falta de estrutura.
O município de Carapicuíba tem um histórico de desastres ambientais e de políticas de urbanização racistas e excludentes que resultam em obras de “urbanização mal pensada”, nos termos de Mãe Zana, que desperdiçam milhões e milhões, sem levar em conta os impactos sociais e ambientais: a canalização do rio, a construção de túneis, viadutos e avenidas e o aterro da lagoa da cidade. “Depois da década de [19]80, que esse desenvolvimento chega, Carapicuíba começa a se tornar página de todos os jornais, com enchentes, com desabamentos, com isso, com aquilo [...] E aí, essa reurbanização desenfreada, impensada e criminosa mata, porque tem dezenas de pessoas que já morreram por consequência de enchentes. E várias famílias destruídas, lares destruídos também por consequência dessa falta de estrutura”, observa Mãe Zana.
A RETOMADA DAS OBRAS DO PAC E A DESTRUIÇÃO DO ILÊ
Além das enchentes periódicas que prejudicavam anualmente o Ilê, o avanço das obras do PAC de canalização do Córrego do Cadaval e da construção de avenidas demoliram numerosos imóveis ao seu redor, o que colocou em risco a permanência do terreiro, causando danos irreparáveis. A própria prefeitura, por meio de contínuas ações de violência, tornou iminente o perigo de desabamento do terreiro. “Com isso, começaram a abrir rachaduras imensas que nos impossibilitavam de transitar no espaço”, diz Mãe Zana.
Apesar das tentativas de diálogo e de negociação por parte da Yalorixá do Ilê com a administração municipal, no dia 15 de dezembro de 2023, o dia seguinte de uma audiência pública que foi mobilizada pela demolição do terreiro, a prefeitura pôs abaixo, à toque de caixa, o Ilê Asé Odé Ibualamo, Unidade Territorial Tradicional (UTT) do povo Yorubá, sem consulta prévia à comunidade e sem que, ao menos, ela pudesse tirar os seus pertences.
A justificativa dada pelas autoridades municipais para demolição foi a obra de canalização do córrego do Cadaval que margeia o terreno. As ações conduzidas pela municipalidade exemplificam o racismo estrutural, institucional e religioso a que essas comunidades são sistematicamente submetidas, por meio de ofensivas diretas e indiretas, que buscam tornar insustentável a permanência dos terreiros dos povos de matriz africana.

Árvores de mais de cinquenta anos são derrubadas para a canalização do rio Cadaval.
Fonte: UOL.
A violência da Prefeitura contra o Ilê começou em 2004. Segundo Mãe Zana, “O impacto da obra, mesmo antes dela chegar propriamente no local, ela já começou a impactar desde o primeiro túnel que eles começaram a colocar. E não foi só no terreiro nosso. Foi nos terreiros de antes da gente e também nas casas das pessoas. Tanto que até hoje, se chover agora, a gente vai lá na região e vai tá tudo alagado e por cima do asfalto”.
Quando a obra do PAC de canalização do córrego do Cadaval chegou no segundo trecho, já causava impacto em toda a região do terceiro trecho, onde se localizava o terreiro. Nessa ocasião, a entrada do barracão precisou ser virada por conta da obra. A tubulação que foi instalada no terceiro trecho causou inundações periódicas, porque a vazão do rio é bem maior do que a tubulação que foi colocada. Isso fez com que toda a região ali começasse a alagar.
O município de Carapicuíba tem um histórico de desastres ambientais e de obras de “urbanização mal pensada”, como diria Mãe Zana, que desperdiçam milhões e milhões, sem levar em conta os impactos sociais e ambientais: a canalização do rio, a construção de túneis, viadutos e avenidas e o aterro da lagoa da cidade. “Depois da década de [19]80, que esse desenvolvimento chega, Carapicuíba começa a se tornar página de todos os jornais, com enchentes, com desabamentos, com isso, com aquilo [...] E aí, essa urbanização desenfreada, impensada e criminosa mata, porque tem dezenas de pessoas que já morreram por consequência de enchentes. E várias famílias destruídas, lares destruídos também por consequência dessa falta de estrutura”, observa Mãe Zana.
No espaço sagrado do Ilê, diz a Ialorixá, “não sobra mais nada, só tem buracos e terras. As nossas coisas devem estar aqui misturadas com essa lama, debaixo dessa terra toda. É o tal do desenvolvimento que não respeita a vida. Nós não somos contra o desenvolvimento. O desenvolvimento é necessário, o saneamento básico é necessário. Agora, é necessário que seja respeitada a vida, as formas de vida e os territórios vivos”.

No dia da destruição, segundo Mãe Zana, o primeiro alvo das garras da escavadeira foi o espaço sagrado onde ficavam guardados pertences ancestrais e artefatos de importância. Era lá que ela acreditava estar conservada a primeira documentação formal da existência do terreiro: nos anos 1980, Dona Nega registrou o Ilê como parte da Federação de Pedro Furlan, fundador da Igreja Espiritual Cristã Maior de Presidente Altino, Tenda Santo Antônio (em 1948), e da União Regional Umbandista da Zona Oeste da Grande São Paulo. Esse tipo de aliança, em que o terreira ficava registrado como “casa de caridade”, era motivada principalmente pela necessidade de proteção contra abusos policiais. Alguns meses depois, o documento foi localizado na casa de Mãe Iraildes.
Mesmo entre os escombros, ruínas e cacos, em meio à destruição avassaladora da materialidade do Ilê, a ancestralidade vive, bem como as poderosas articulações espirituais com outros terreiros da cidade em conexão com espaços religiosos de outros estados, que se estendem até o continente africano. Perguntado sobre o que desejaria como patrimônio e reparação da violência sofrida, Ofacilomy, herdeiro do terreiro, responde que aquela terra estará ali para sempre, imbuída da história de sua comunidade, e essa conexão não deve ser desfeita ou desconsiderada. Em suas palavras, é necessário “plantar” a história do Ilê Asé Odé Ibualamo.

Vistas da área onde se localizava o Ilê Asé Odé Ibualamo, em outubro de 2023, quase um ano depois de sua destruição. Até o momento, os assentamentos e outros itens materiais continuam nessas terras, de grande importância espiritual para a comunidade e de relevância histórica e arqueológica geral.
Fonte: Carolina Klocker.
Entre as várias ações realizadas para enfrentamento da ameaça de demolição, foi criada, no final de 2022, a Frente Ilê Odé Ibualamo, que reúne grupos organizados e indivíduos em defesa do Ilê. A Frente redigiu uma carta aberta e abaixo-assinado, que conta com mais de 600 assinaturas (fevereiro de 2024) e é subscrita por quase 30 entidades, como o Movimento Negro Unificado (MNU), a Central Única dos Trabalhadores (CUT/SP), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST/SP), além de coletivos ligados a universidades, partidos, advocacia e grupos religiosos e culturais. Desde então, a Frente vem promovendo divulgação das atividades referentes ao terreiro e a outras lutas associadas, além de informações sobre atividades no campo do patrimônio e dos museus.
Uma das ações diretas realizadas a partir dessa articulação, que atinge níveis municipais, estaduais e federais, aconteceu em 27 de abril de 2023, na Câmara Legislativa no Município de Carapicuíba. Na data, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo e o Ministério Público Federal promoveram a Audiência Pública intitulada “Discriminações históricas, socioeconômicas e estruturais contra povos de terreiros e comunidades tradicionais: o caso Ilê Asé Odé Ibualamo e o caminho para prevenção e reparação”, com vistas a discutir as numerosas formas de violência contra povos de terreiros e comunidades tradicionais, a partir desse caso específico. A Audiência Pública procurou discutir estratégias de salvaguarda dos direitos das comunidades tradicionais, assim como a efetivação de políticas públicas em seu favor, além da defesa do patrimônio histórico, cultural e religioso do país.
Entre as instituições e organizações responsáveis comprometidas com a defesa dos direitos dos povos de terreiros e comunidades tradicionais, estiveram presentes na Audiência representantes de: Defensoria Pública do Estado de São Paulo; Ministério Público Federal; Câmara Legislativa Municipal de Carapicuíba; Diretoria de Povos e Comunidades Tradicionais do Ministério do Meio Ambiente; Ministério dos Direitos Humanos; Ministério da Justiça; Ministério da Igualdade Racial; Ministério das Mulheres; Casa Civil do Governo Federal; Casa Civil do Governo do Estado de São Paulo; Prefeitura Municipal de Carapicuíba; Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais; Rede de Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil; Ordem dos Advogados do Brasil; Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional; e Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico.
Desde a Audiência Pública, vários caminhos para reparação vêm sendo construídos e continuados, para que nunca mais se repitam tais atitudes de racismo e intolerância contra os povos de matriz africana.
Registro da Audiência Pública "Discriminações históricas, socioeconômicas e estruturais contra povos de terreiros e comunidades tradicionais: o caso Ilê Asé Odé Ibualamo e o caminho para prevenção e reparação”, realizada em abril de 2023.
Fonte: Rádio e TV Repensar.
Vídeo do processo de destruição do Ilê.
Fonte: acervo da comunidade.
A EXTENSÃO DA DESTRUIÇÃO: PALAVRAS DO OFACILOMY
Fala concedida por Bryan William (Ofacilomy), em conversa realizada em março de 2023, apenas três meses após a demolição do Ilê Asé Odé Ibualamo, na sede da Associação Cultural e Assistencial São Cosme e São Damião, fundada e presidida por Mãe Iraildes.
Eu sou o Ofacilomy, meu nome é Bryan William, mas na religião eu sou Ofacilomy. Sou Filho de Santo da Mãe Zana e da Mãe Iraildes, sou o próximo herdeiro. Fui escolhido bem pequenininho já como herdeiro da tradição, herdeiro da Mãe Zana, pra seguir o que ela começou. Começou não, né? Porque ela herdou também de antepassados. Eu quero deixar aqui registrado um pouquinho, assim, do meu sentimento, de tudo que aconteceu.
Eu não estava presente no dia. Primeiro porque eu moro um pouco longe, então eu estava trabalhando, mas também… É até um pouco doído, assim, pra mim, falar isso, mas eu não acreditava na verdade, né? Era algo, assim, que, quando foi passado pra mim, “Ah, vai demolir o terreiro”, que chegou essa informação pra gente muito rápido – primeiro que foi muito rápido –, a gente não teve nem tempo pra se organizar, na verdade. Eu não acreditava. Falava: “Não, isso é conversa”. Recebi alguns chamados, falei: “Não, não é possível, não vão tirar o terreiro de lá, não vão fazer isso com a nossa tradição, com o nosso barracão”.
Então eu estava trabalhando e, no dia, de manhã, recebi um chamado, assim, “Olha, vem, porque vai demolir o terreiro”, e eu não consegui. Tentei e não consegui, por conta do trabalho. Mas, ao mesmo tempo também, era algo que não me… Falei “Não, que nada”. Não, não vai, isso não vai acontecer. Eu entrei pra trabalhar e, na hora da minha janta, eu vi o vídeo. Que foi o momento que eu acho que minha ficha começou a cair. Que eu vi o vídeo de um primo meu, do barracão sendo demolido, assim… E cada pancada que eu via no vídeo era uma pancada na minha história também, né? Porque foi lá que eu cresci, foi lá que eu me criei, foi lá que eu vi, que eu me formei, quem eu sou, desde pequenininho, sempre lá. Foi lá que eu trouxe pessoas também, alguns amigos, pessoas que estavam em algum mundo mais perdido, e a gente levou pra lá, e lá teve uma mudança de vida. Umas pessoas que mexeram com umas coisas mais erradas e, quando chegou lá, por conta da tradição, se moldaram.
Então, assim, cada pancada que eu vi do vídeo era uma pancada na minha história também. Eu fiquei me perguntando, “E agora? Quem eu sou?”. Porque tiraram a minha identidade, tiraram o lugar que eu me sentia, que era minha casa, que era onde eu me sentia em casa, onde a gente tinha essa conexão com os orixás e com a comunidade. Várias pessoas, inclusive, no momento da demolição me mandando mensagem, falando assim: “William, e agora?”. Porque é um envolvimento com a comunidade toda, não é somente com a gente que é Filho, por conta das ações que a gente fazia.
Tenho um sobrinho de consideração, que, quando ele ficou sabendo, ele mandou um áudio falando pra mim: “Tio, e agora, onde é que eu vou comer o caruru? Onde é que eu vou receber o meu brinquedo?”. Eu falei para ele: “Não, Kevin, vamos continuar, independente da onde seja, a gente vamos continuar”. Mas ficou aquele sentimento de que o nosso espaço estava sendo demolido, que a nossa história… Eu acompanhei desde pequenininho, eu vi plantando cada coisa, várias mudanças que teve… Eu era novinho quando a minha avó faleceu, que era a outra dona do barracão, então eu não acompanhei muito essa parte mas, desde quando eu nasci, me criei lá dentro, então fui acompanhando cada coisa que colocava… Cada coisa que era plantada, cada fundamento que era feito, cada pessoa que era ajudada, a comunidade era ajudada. A gente fazia as festas para louvar o sagrado, mas também para ter esse acesso com a comunidade, então a gente alimentava todo o povo.
Então, com a destruição do terreno também vem esse “E as pessoas?”. Muitas pessoas dependem, dependiam daquele espaço. Pessoas que iam lá pegar cestas básicas, iam lá nas festas pra se alimentar, pra procurar uma folha quando estava doente, pra procurar um banho. As crianças, que às vezes os pais não tinham condições de dar o brinquedo – a gente, nas festas, essas pessoas iam lá. E aí eu fiquei com esse sentimento, assim. E até hoje é algo que… Eu estive no espaço, logo em seguida, fiquei pouquíssimo, não consegui ficar, chegar lá e ver, do jeito que estava, ver tudo caído. Tipo assim, tudo aquilo que a gente conquistou, destruído, na covardia que foi. Porque pra mim foi uma covardia.
A covardia com os orixás, covardia com a comunidade, covardia com a gente, os Filhos… Então, até hoje, eu tenho esse sentimento ainda de não acreditar. Às vezes, eu venho pra cá, passo por perto, mas eu olho e não consigo acreditar ainda. Eu acho que, na verdade, minha ficha ainda está caindo aos poucos. Não, é algo que… Parece que ainda é surreal. Eu ainda sonho com o dia que eu vou acordar e isso vai ser mentira.
Então só queria deixar registrado aqui minha indignação. E que a gente possa se unir, pra que a gente possa lutar contra isso que fizeram contra a gente. Pra que a gente possa ter um novo espaço, pra que o tombamento do espaço seja feito, porque não é só sair dali e ir para outro lugar, como a minha mãe falou. Tem toda uma história. Acho que vai estar em outro lugar – se Deus e orixás[…]–, mas nunca será igual. A gente… As raízes que têm naquele lugar, o que a gente conquistou, o que a gente plantou ali nunca será igual. Aquilo que foi nos tirado, que foi… A gente perdeu. Então quero deixar aqui a minha indignação.

Mãe Zana: Ofacilomy [Bryan] aos 2 anos e já escolhido como herdeiro do Ilê Asé Odé Ibualamo, no antigo terreiro, na década de 90.
Fonte: acervo da comunidade.